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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Maio: mês de Maria



O nosso nordeste brasileiro é muito conhecido por suas tradições. Estas em geral retratam a cultura da nossa população, e isto não é muito diferente na nossa Serra de São Pedro, situada no sul cearense e participante da Região Metropolitana do Cariri (RMC). Caririaçu é uma cidade interiorana, e de pequena população, 26.393 de acordo com o censo do IBGE de 2010. Gente que vive sua cultura e que revive a cada instante um pouco do seu passado, embora isso acabe se perdendo ao chegar das novas gerações, fator este auxiliado com a chegada da globalização.
Uma das maiores tradições do Nordeste são as quadrilhas juninas. Assim como existem outras culturas que também são só nossas como por exemplo o maneiro-pau, a festa dos caretas, as renovações, as bandas cabaçais, o reisado, algumas brincadeiras infantis, entre outras. Culturas que são vividas aqui no interior nordestino, e agora também na RMC. E que Caririaçu também vive e revive.
Uma destas tradições é o culto à Maria, em especial aqueles que são realizados no mês de maio. Esta é uma celebração tipicamente católica, fruto da nossa formação histórica e importação do catolicismo.
O mês de maio é conhecido por suas datas comemorativas, em especial o dia das mães, que é comemorado no segundo domingo do mês. Em alusão ao dia das mães, neste mês também se comemora, o dia de nossa senhora, mãe de um daqueles que mais se conhece em toda história humana: Jesus Cristo.
A única diferença é que a comemoração se dá no mês inteiro, onde uma série de celebrações são feitas. Por isso dizemos que o mês de maio é o mês de Maria, pois é a ela que se dedica este mês inteiro. Mas o seu dia especial é 13, como bem diz o trecho do bendito:

“A 13 de maio na cova da guia
No céu aparece
A virgem Maria
Ave, ave, ave Maria...”

Durante os 31 (trinta e um) dias do mês de maio reza-se um terço que é oferecido à nossa senhora. Todos os dias são colocados flores no altar, como oferenda à santa, e as que são retiradas são guardadas para serem usadas no ultimo dia de celebração. Além das flores, o altar é iluminado por velas que são também vistas como oferendas neste ritual.

No ultimo dia de festejos, é realizado uma grande festa. Onde toda a comunidade se reúne para rezar em frente ao altar e participar dos demais ciclos. Depois do terço, todos se reúnem em volta de uma fogueira, e cantando alegremente dão voltas sobre esta. Ao mesmo tempo em que são queimadas todas as flores que foram antes recolhidas.

Às voltas na fogueira, e ao sentir a fumaça, cantando e rezando aqueles que participam do festejo pedem e agradecem a nossa senhora.
Depois de deste ciclo, todos voltam cantando de frente ao altar para aclamar e exaltar a Nossa Senhora e aos demais santos e santas que vivem e reinam no céu, e, até mesmo, na terra. Agradecem a Deus por tudo, e também pedem saúde, paz, harmonia e felicidades. Em seguida todos se reúnem para compartilhar um momento de encerramento, onde geralmente se é oferecido um café, um chá acompanhado de biscoitos e bolos feitos artesanalmente, que também representam manifestações populares da nossa cultura.
Citamos como uma das pessoas que dão continuidade a esta tradição Dona Maria Joana, que mora desde 1947 na comunidade Bois, localizada na Zona Rural de Caririaçu. Casou-se com 16 anos. Onde estabeleceu sua família, e esta sempre vive nesta comunidade.
Ela conta que reza o terço em oferecimento a Maria há aproximadamente quatro décadas. Ela retratou que outras famílias também o faziam, um exemplo eram as Bentas e também D. Jesus que também moravam na comunidade.
Dona Maria é ‘rezadeira’, é ela quem é a responsável por tirar as renovações (entenda o que é renovação) na casa da maioria das famílias da comunidade Bois e até mesmo nas comunidades vizinhas como Francisco, Faustina, Cachoeirinha, Patos, Constantino, Borís[1]. Ela é considerada um ícone nestas comunidades, devido aos trabalhos que desenvolvera durante muito tempo na comunidade, como exemplificações destas atividades têm-se: ‘rezadeira’ (como citamos anteriormente), agente de saúde e parteira.
Ela conta que traz isso da raiz da sua cultura familiar, e teme que essa tradição não seja seguida pelos seus descendentes.
Enfim, é muito bom ver como essas culturas são vividas, e retratadas na simplicidade do nosso povo. E ver que apesar das tecnologias, e deste mundo altamente acelerado, ainda vive-se tempos de reunião, pois além de cultuar o divino esta crença popular une todo um grupo de pessoas, dando o verdadeiro sentido do que se é comunidade.




[1] Sítio Borís: homenagem à família francesa Borís que era proprietária da Fazenda Serra Verde no município de Caririaçu.

sábado, 23 de julho de 2011

Show de João Kyor

26 de junho de 2011.



Domingo à noite.
Em plena festa de nosso orago (São Pedro).
Praça Pe. Augusto aglomerada de fãs.
Praça lotada, esperando a apresentação de João!
João Kyor faz um show para entrar na história dos anais da Serra de São Pedro.
A gravação deste show originará um DVD, o primeiro de um artista são-pedrense.
João resgatou a banda Cometa Azul e interpretou músicas de sua própria autoria, com destaque para Jardim Molhado do Sertão; e de outros artistas, como: Zé Ramalho, Alceu Valença, Jota Quest, e o artista que deu origem ao seu nome artístico, Belchior e sua canção Divina Comédia Humana.
Talento e irreverencia no palco!
O show teve a singela e emocionante homenagem ao músico e amigo de todos: Cicinho de Belinha, onde João cantou a música O Sol de Jota Quest.
João Kyor com seu carisma, excentricidade, irreverência e músicas que descrevem a vida e os anseios da região leva a multidão presente a um frenesi quase orgástico.
Muito provavelmente este tenha sido o ápice da festa (social) de São Pedro, um artista local embalando os agitos de seus conterrâneos!

sábado, 19 de março de 2011

Personalidades de Caririaçu: Raimundo de Oliveira Borges


Antes de versar sobre Raimundo de Oliveira Borges faz-se mister um pequeno adendo: ele prestou os seus serviços de homem das letras, das leis e da política noutras cidades como por exemplo, Missão Velha, Tauá e com destaque para o Crato. Porem restrinjo-me em relatar as suas ações em seu querido torrão natal, Caririaçu, a eterna Serra de São Pedro!
Raimundo de Oliveira Borges nasceu, irrompeu para a glória terrena numa terça-feira, 2 de julho de 1907 no pequeno povoado de São Pedro, atualmente Caririaçu, na casa onde hoje funciona a Secretaria de Agricultura do município, Rua Carlos Morais nº 485.
Raimundo de Oliveira Borges em 1923
Prole caçula de Clemente Ferreira Borges e Maria José de Oliveira Borges. A maior parte de sua infância foi no sítio Taquari, onde seu pai possuía uma fazenda e um engenho.
Cursou o antigo primário no seu torrão natal entre os anos de 1916 e 1921 e, o secundário no Colégio Diocesano do Crato (1923), Instituto Araripe Júnior, Instituto Menezes Pimentel e Liceu do Ceará, em Fortaleza (1924 a 1926). Concluiu no Ginásio da Bahia (1927), em Salvador, perfazendo assim a escolaridade exigida na época para a inscrição no vestibular do curso superior.
Em março de 1928 ingressa juntamente com 17 cearenses na Faculdade de Medicina da Bahia, onde cursou apenas o 1º ano.
Em 1930 remaneja-se para a Faculdade de Medicina do Recife, concluindo o 2º ano médico.
Entretanto, Borges não concluiu esse curso, devido a problemas de saúde interrompeu-o e regressou para São Pedro empreendendo-se com uma pequena farmácia comprada por seu pai, a Farmácia Borges, em 1931. Um ano depois, casou-se com Iraídes Bezerra de Souza, da urbe vizinha de Lavras da Mangabeira.
Conta-se que certa vez Raimundo encontrava-se recostado à soleira da farmácia quando um transeunte o interpelou: “como vão as pílulas?” Ele então imaginou como estariam seus amigos da Faculdade de Medicina e isso incitou-lhe a fazer outro curso superior. Em 1933, ele galga o exame de admissão e matricula-se na Faculdade de Direito do Ceará e cola grau em 1937, sendo o orador da turma pela sua eloquência, versatilidade e cultura.
Principia na carreira profissional na função de Promotor de Justiça nas Comarcas de Tauá, Missão Velha e Crato. Depois de efetivado, afastou-se por motivos particulares. Foi edil no Crato e suplente de deputado estadual pelo extinto PSP (Partido Social Progressista).
Raimundo de Oliveira Borges também lançou-se candidato a prefeito de Caririaçu. Mas por capricho do destino, ele foi derrotado pelo seu oponente por míseros 4(quatro) votos. Borges atribui essa derrota a prostituição do voto.
Em 13 de maio de 1975 foi congratulado com o titulo de Cidadão Honorário do Crato.
Raimundo de Oliveira Borges foi fundador e dirigente do Instituto Cultural do Cariri e professor da Faculdade de Filosofia do Crato, a qual deu origem a URCA (Universidade Regional do Cariri).
Advogado, professor e escritor ele foi uma das mais brilhantes mentes do Cariri, tendo grande destaque no campo da Advocacia.
Em sua terra natal, a menina de seus olhos, Serra de São Pedro, Raimundo Borges criou o Gabinete de Leitura Euclides da Cunha[1], e em companhia de Raul Milton (forasteiro de Recife) e seu primo Manoel Furtado de Lacerda, o jornal O ECHO, quiçá o primeiro noticioso impresso da cidade. O jornal hebdomadário tinha o intento de divulgar os princípios democráticos e renovar o quadro político. Porem teve biografia efêmera vindo a extirpar-se já no seu primeiro exemplar.
Raimundo de Oliveira Borges desde sempre cultivou o hábito de ler e escrever, destarte ele desenvolveu uma obra invejável com cerca de 24 livros publicados, são eles: Crime de Injúria verbal (1945), Interdito Proibitório (1963), A Eloquência e o Direito (1963), A Cidade do Crato (1980), Monsenhor Doutor Eugênio Veiga (1974), Serra de São Pedro, esboço histórico (1983), Memórias, fragmentos de minha vida (1988), A presença de Euclides da Cunha na nossa história (1962), Visita de Nossa Senhora de Fátima a Caririaçu, A Árvore Amiga (1995), Euclides da Cunha e a Unidade Nacional, O Coronel Belém do Crato, um injustiçado, Eles e Eu, mensagens gratificantes, O Engenho Taquari, Síntese Histórica da Câmara Municipal de Caririaçu, O Crato Intelectual, Memória Histórica da Comarca do Crato, O Padre Cícero e a Educação em Juazeiro, Clemente Ferreira Borges, Meu Pai, Discursos Acadêmicos, Árvore Genealógica da Família Borges, Os Bispos do Crato, Relembranças Inesquecíveis, Meditações e Saudades e Reminiscências, o Meu Itinerário (2007). Este último lançado em comemoração ao seu centésimo aniversário natalino.
Dentre as suas publicações destaca-se Serra de São Pedro, esboço histórico, de 1983 com uma 2ª edição em 2007, por ela ser uma das raras fontes impressas que contam fragmentos da memória da cidade de Caririaçu. Porem em todos os outros ele faz alusão a sua Serra de São Pedro. Serra de São Pedro, era assim que ele chamava e queria que fosse o nome oficial da cidade de Caririaçu.
Para amargura de todos os conterrâneos e irmãos caririaçuenses, companheiros caririenses e porque não povo cearenses, às 14h do dia 27 de janeiro de 2010 é ceifado pelo anjo da morte para medrar os anjos do éden, Raimundo de Oliveira Borges, no nosocômio São Miguel de Crato, o Mundinho, como era conhecido pelos familiares e amigos próximos ou Dr. Borges, na ambiência profissional. Faleceu aos 102 anos e encontrava-se lúcido e em plena atividade intelectual, “morrendo assim como cidadão que estava vivo”, produzindo, sendo útil a sua querida gente e não definhando sobre um catre.
A Câmara Municipal de Caririaçu criou a medalha Raimundo de Oliveira Borges, toda cunhada em bronze para condecorar personalidades que se destacam na contribuição para o desenvolvimento  da Serra de São Pedro.

Referências bibliográficas:
BORGES, Raimundo de Oliveira. Serra de São Pedro Município de Caririaçu (Esboço Histórico). Tipografia e Papelaria do Cariri, Crato 1983.
BORGES, Raimundo de Oliveira. Reminiscências: O Meu Itinerário. ABC Editora, Fortaleza, 2007.
OLIVEIRA, José Jezer de. Raimundo Borges morreu enquanto estava vivo. Disponível em http://www.casadoceara.org.br/index.php?arquivo=pages/blog/perfil_jezer/e0410.php Acessado em: 03/12/2010.



[1] Uma tentativa de libertar a vila de uma enorme teia de ignorância e ausência de intelectualidade. Ele escrevia para as editoras pedindo doações de livros. Criou-se um galpão que era aberto todas as noites para aqueles que se interessassem e tomassem gosto pela leitura. Porem algum tempo depois a instituição ruiu, Raimundo Borges acreditava que isso aconteceu devido a sua ausência da cidade e a politicagem, essa agrura que sempre assolou Caririaçu.